Atualizado em: Janeiro 3, 2026
Porque é que este não é mais um artigo sobre Carnaval (e deve ler até ao fim).
Há festas populares que sobrevivem porque se adaptaram ao turismo. O Entrudo de Lazarim sobreviveu porque nunca se deixou domesticar.
Já assisti a vários Entrudos em Portugal, do mais mediático ao mais encenado. Lazarim continua a ser o mais difícil de explicar, e talvez por isso o mais honesto. Aqui não há concessões. Não há maquilhagem cultural. Não há narrativa preparada para agradar a quem chega de fora.
Durante quatro dias, entre 14 e 17 de fevereiro de 2026, esta aldeia do concelho de Lamego suspende as regras habituais.
Não para criar espetáculo, mas para cumprir um ritual antigo de inversão social, anonimato e catarse coletiva. O visitante é bem-vindo, mas não é o centro de nada.
Este não é um guia de “o que fazer”. É um texto para perceber o que está realmente a acontecer, e porque é que o Entrudo de Lazarim continua a ser um dos últimos rituais de Inverno verdadeiramente vivos em Portugal.
Quem procura confettis, música comercial e selfies fáceis vai sair frustrado. Mas quem quer compreender uma tradição que ainda incomoda, resiste e se impõe, está no sítio certo.

Entrudo de Lazarim: porque não é Carnaval, mesmo que aconteça na mesma altura
Chamar Carnaval ao Entrudo de Lazarim é um atalho conveniente. E profundamente errado.
O Entrudo de Lazarim não nasce da lógica do desfile, da sátira ligeira ou da festa para consumo rápido. Está ligado a antigos rituais de Inverno, onde a comunidade cria um espaço controlado de desordem para garantir equilíbrio durante o resto do ano.
Durante estes dias, quem veste a máscara deixa de ser quem é no quotidiano. O anonimato não é brincadeira: é proteção. É isso que permite dizer o que normalmente fica por dizer, expor tensões, corrigir excessos e libertar conflitos acumulados.
Aqui, os caretos não falam, não retiram a máscara e não se identificam.
Não é mistério encenado. É regra fundamental do ritual. A máscara suspende a identidade social e cria um território temporário onde as hierarquias desaparecem. Todos ficam no mesmo plano. E isso é mais subversivo do que parece.
É também por isso que nunca “embelezaram” Lazarim para agradar. Não se tornou simpático. Não foi suavizado. E talvez por isso continue vivo, enquanto outras tradições se tornaram apenas memória.

As máscaras de madeira de Lazarim: porque não são pintadas (e porque isso importa)
As máscaras de Lazarim não são pintadas. Não é descuido. É escolha.
Esculpidas em madeira de amieiro, mantêm a cor natural do material, por vezes apenas com um leve acabamento para preservação. A madeira fica exposta, vulnerável, marcada pelo tempo. Tal como a tradição que representa.
Cada máscara é feita à mão, sem moldes, sem repetição. Um artesão pode demorar cerca de uma semana a concluir uma peça. Não há duas iguais. Cada uma carrega a imaginação, o traço e a assinatura de quem a esculpiu.
As figuras oscilam entre o humano e o animal, o grotesco e o caricatural. Olhos exagerados, chifres, bocas distorcidas. Não para assustar quem vê, mas para materializar forças que não se explicam por palavras.
Uma máscara de Lazarim pode custar cerca de 600 euros.
O valor não está no objeto enquanto souvenir, mas no saber acumulado que passa de geração em geração. É por isso que estas máscaras não pertencem à lógica do mercado rápido. São identidade local esculpida, não decoração.

Caretos e Senhorinhas: anonimato, sátira e justiça comunitária
Ser careto ou senhorinha em Lazarim não é “ir mascarado”. É assumir um papel social temporário.
As fardas são de palha, tecidos antigos, folhas de milho, colchas gastas. Nada é novo. Nada é escolhido para agradar. Tudo serve para reforçar o anonimato e afastar qualquer leitura estética superficial.
Durante o Entrudo acontecem os chamados “acertos de contas”. Pequenas críticas, tensões antigas, comportamentos mal digeridos ao longo do ano. Tudo emerge na Leitura do Testamento da Comadre e do Compadre, um dos momentos mais aguardados, e mais temidos.
A sátira é direta. Por vezes dura. Mas cumpre uma função clara: dizer o que precisa de ser dito, para que o resto do ano possa continuar em equilíbrio.
Aqui, a comunidade regula-se a si própria. Sem intermediários, sem filtros e sem pedidos de desculpa.

O sagrado e o profano: porque durante estes dias quase tudo é permitido
O Entrudo de Lazarim vive da tensão entre ordem e caos. Entre o permitido e o proibido.
Durante alguns dias, o mascarado ganha uma liberdade rara. Pode provocar, correr, brincar, ofender e abraçar. Pode ser excessivo. Também pode ser incómodo. Porque depois, quando a máscara cai, tudo regressa ao lugar.
Esta lógica vem de rituais agrícolas antigos, ligados à proteção da comunidade e à renovação simbólica do ciclo anual. A máscara funciona como mediadora entre o humano e forças que não se controlam.
Não é folclore para palco. É herança pagã que sobreviveu dentro de um calendário cristianizado.
E é precisamente esta ambiguidade que torna o Entrudo de Lazarim difícil de vender, e essencial de preservar.
Programa do Entrudo de Lazarim 2026 (o que esperar, sem falsas promessas)
O Entrudo decorre entre 14 e 17 de fevereiro de 2026, sendo a terça-feira o dia central dos festejos.
Mais importante do que seguir horários rígidos é perceber a lógica:
- sábado e segunda-feira funcionam como dias de preparação e encontros;
- domingo e terça concentram os momentos mais simbólicos;
- a terça-feira culmina com os cortejos, a leitura dos testamentos e as queimas.
No entanto, o dia mais importante é a terça-feira de Carnaval, que ano após ano mantém as mesmas tradições.
Dia 17 de fevereiro (Terça-Feira de Carnaval)
O dia principal dos festejos de Carnaval em Lazarim.
As principais atividades são:
- Saída dos novos caretos pelas ruas;
- Leitura do Testamento da Comadre e do Compadre;
- Cortejo dos Caretos pelas ruas acompanhados pelo grupo Bombos de Lazarim;
- Queima do Compadre e da Comadre;
- Concurso de máscaras e fardas;
- Feijoada e caldo de farinha.

Como visitar Lazarim sem estragar o que ainda funciona
Esta parte é importante. Chegue cedo. Estacione fora da aldeia sempre que possível. Caminhe.
Observe antes de fotografar. Não toque nas máscaras sem autorização, não peça aos caretos para posar e não tente “entrar na brincadeira” se não for convidado.
Lazarim recebe visitantes, mas não atua para eles. Quem percebe isso, leva muito mais do que fotografias.
Para dormir, Lamego é a melhor base, com várias opções de hotéis e alojamentos locais.
Para comer, há tendas comunitárias, feijoada e caldo de farinha, além dos cafés da aldeia. Tudo simples. Tudo partilhado.

A festa dos Caretos e Senhorinhas: O Melhor do Entrudo de Lazarim
Em Lazarim leva-se a tradição muito a sério, por isso, na altura do Entrudo, Caretos e Senhorinhas saem à rua devidamente mascarados.
Os trajes de Entrudo, ou de Carnaval, são compostos pelas enigmáticas máscaras de madeira e pela farda, ou seja, a roupa que caretos vestem.
As fardas são os fatos de palha de confeção manual sobre roupa antiga, algumas vezes remendada, folhas de milho, enfim, aquilo a que os habitantes conseguem deitar a mão e que permitam que se mantenham no anonimato.
A questão de os caretos não serem identificados é muito importante, até porque existem momentos de “acertos de conta”, em que são proferidas “queixas” entre vizinhos.
É a Leitura do Testamento da Comadre e do Compadre, que costuma acontecer na terça-feira de Carnaval.
Também têm adereços como chocalhos, ramos e outras coisas inusitadas, como por exemplo maçãs ou laranjas cravadas nos cornos das máscaras!
Eles dançam, correm, brincam e fazem tropelias, em representações teatrais dignas de um palco famoso, tanto entre eles, como com os visitantes.
O que os caretos e demónios nunca fazem é retirar a máscara ou falar, já que, como falei, o secretismo é chave e garante o misticismo ancestral deste carnaval rústico.

As máscaras dos Caretos de Lazarim
São vários os aspetos que tornam únicas as máscaras dos Caretos de Lazarim.
Esculpidas em madeira de amieiro, os artesão da freguesia fazem um trabalho incrível dada a criatividade e imaginação necessária para de um pedaço de madeira criar figuras, que têm tanto de belo como de aterrador.
Como são feitas manualmente, são todas únicas, e podem demorar uma semana a serem feitas.
Este saber é passado de geração em geração e cada cada artesão tem uma assinatura.
Veja bem, as máscaras são de madeira de amieiro exposta, ou seja, sem cor. Pelo que um artesão me contou, algumas máscaras levam um acabamento para preservar a madeira, mas são poucas.
As máscaras de Lazarim tomam a forma de demónios, bruxas ou figuras grotescas com fisionomias que parecem animais que são um desfio à imaginação.
Vai ver muitos chifres, barbichas, olhos esbugalhados, caras felizes e caras tristes num desfile colorido que são o orgulho e identidade local de Lazarim.

O Sagrado e o Profano
Os rituais de celebração do Solstício de Inverno dão à máscara o papel principal, na transmissão do significado e do simbolismo da festa.
Ao careto, a máscara transfere poder e transforma-o numa representação dos antagonismos, sagrados e profanos, que invadem as localidades nesta altura do ano.
Esse poder quase sobre-humano lhe confere por alguns dias, direito de representação social e liberdade de atuar à margem das regras.
Acontece assim uma divertida dança entre a ordem e o caos, entre o céu e o inferno. Trajado com tresloucados o originais fatos, o mascarado faz, ao mesmo tempo, os pedidos de proteção pagã à Mãe Natureza e os peditórios em nome de Santos e Sagradas Figuras.
Salta, brinca, ofende e abraça.
In CIMI – Centro Interpretativo da Máscara Ibérica.
Tudo nessa altura lhe é permitido.
O que são as Senhorinhas de Lazarim?
As Senhorinhas de Lazarim são a versão feminina dos Caretos de Lazarim, isto é, são as representações femininas destas máscaras artesanais.
Mas atenção, pois ao ver uma de Senhorinha de Lazarim, não quer dizer que esteja uma menina por baixo da máscara.
Isto porque as máscaras e fardas podem ser usadas por homens e mulheres… estes caretos são muito brincalhões e, dizem eles, é tudo na brincadeira!
Como é a preparação para o Entrudo de Lazarim?
Durante o encontro com artesãos, um dos fiéis depositários da arte de fazer máscaras contou-nos como são as últimas semanas antes do Carnaval.
E como deve imaginar, todos os minutos contam para terminar as máscaras e fardas a tempo.
Convém lembrar que estes artesãos têm outras ocupações profissionais, ou seja, uma grande parte do dia é dedicada ao trabalho e a outros afazeres.

Veja como é a preparação do Entrudo de Lazarim, de acordo com o que está exposto no CIMI.
Costureiras de folias
Durante as quatro semanas que antecedem o Carnaval, as artesãs de Lazarim trabalham arduamente, muitas vezes fora de horas, para realizar os originais trajes do Entrudo.
Singulares e criativas indumentárias são realizadas nos mais variados materiais, palha, rafia, velhas colchas feitas em tiras, fitas coloridas, bocados de pele de coelho e rendas.
Em conjunto com as máscaras, tornam-se verdadeiras peças de arte, que espelham a loucura e alegria das festa e dão enfâse aos saltos, movimentos entusiastas dos carretos.
As artesãs de Lazarim não são só responsáveis por fazer os fatos dos Caretos. Elas também enfeitam e adornam as máscaras, participal na organização das festas, colaboram nos cozinhados e no fim… “recolhem as canas”.
In CIMI – Centro Interpretativo da Máscara Ibérica.

A feijoada e caldo de farinha de Lazarim
Como é tradição, este ano também há feijoada e caldo de farinha a distribuir gratuitamente em Lazarim. E se não tiver loiça, pode comprá-la no local, por isso não há desculpa para não participar na festa.
Se viu a foto anterior, já sabe quais são as origens da feijoada e caldo de farinha em Lazarim, muito ligadas aos usos e costumes da região, como por exemplo do porco que vai a curar em grandes arcas de madeira cheias de sal.
Por ser uma altura de festa, em que se tira a barriga de misérias, a comida é enriquecida com as carnes de porco e partilhada com todos.
Espírito de comunidade e entreajuda no seu melhor!

A Leitura do Testamento da Comadre e do Compadre
Imagine um espetáculo animado no coração de Lazarim durante o Entrudo. Os protagonistas? Dois grupos entusiasmados – os rapazes solteiros e as raparigas solteiras. O momento mais aguardado? A leitura dos testamentos em praça pública.
As jovens solteiras começam com o “testamento da burra”, ou seja, uma crítica satírica aos rapazes da aldeia. A resposta? Enfim, o hilariante “testamento do burro”, onde os rapazes solteiros revelam a sua visão caricatural das moças da aldeia.
Fruto de encontros secretos e investigações ao longo do ano, estes testamentos expõem falhas e defeitos de maneira divertida.
Os escolhidos para conduzir este espetáculo são que têm idade próxima a se casar, cada um liderando seu lado na guerra de sexos que transforma a encenação num evento maledicente e divertido.
É caso para dizer, a brincar, a brincar, dizem-se as verdades!

CIMI – Centro Interpretativo da Máscara Ibérica: o contexto que falta a muitos visitantes
Instalado no Solar dos Viscondes de Lazarim, o CIMI é essencial para compreender o Entrudo para além da superfície.
A exposição de máscaras, trajes e painéis explicativos ajuda a perceber o papel de cada interveniente nos rituais de Inverno em Portugal e Espanha. Durante o Entrudo, o espaço mantém-se ativo, com eventos e atividades, incluindo propostas para crianças.
A entrada é gratuita. E a visita muda completamente a leitura da festa.








Barraquinhas e onde comer em Lazarim
Se está a pensar ficar um dia completo na aldeia, pode ficar descansado já que não faltam lugares para comer qualquer coisa.
Assim, além dos cafés da aldeia, há uma tenda gigante organizada pela comissão de festas, onde poderá provar algumas iguais locais. Devo dizer que o arroz de enchidos estava particularmente bom!
Além disso, também estavam disponíveis barraquinhas com bifanas, doces de gema e outras comidas para aconchegar o estômago.

Onde fica Lazarim e como chegar ao Entrudo de Lazarim
A aldeia de Lazarim conta com cerca de 500 habitantes e está situada perto de Lamego, ou seja, no distrito de Viseu.
Se precisar de alojamento, a minha recomendação é que fique em Lamego, onde tem várias opções de hotéis e alojamentos locais, como por exemplo o Hotel Solar dos Pachecos (3 estrelas), ou a Quinta dos Carvalhos, se preferir desfrutar das comodidades de um Enoturismo no coração do Douro.
FAQ – Perguntas frequentes sobre o Entrudo de Lazarim
Não no sentido clássico. É um ritual comunitário que aceita visitantes, mas não se molda a eles.
Podence é mais mediático e colorido. Lazarim é mais cru, silencioso e ritualizado
Sim. Madeira de amieiro, maioritariamente sem pintura.
Sim, com acompanhamento. Algumas sátiras podem ser duras.
Sim. Dá contexto e evita leituras erradas do que se vê na rua.



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