Atualizado em: Janeiro 3, 2026
Há festas que se visitam. E há rituais que se observam com atenção. O Entrudo Chocalheiro de Podence pertence claramente à segunda categoria.
Durante quatro dias, uma pequena aldeia de Trás-os-Montes transforma-se num palco onde tradição, identidade e memória coletiva se cruzam.
Não há carros alegóricos, sambas importados ou disfarces improvisados. Há máscaras pesadas, chocalhos ruidosos e um código de comportamentos que não foi criado para turistas, mas herdado de geração em geração.
Os Caretos de Podence não existem para entreter. Existem porque sempre existiram.
Representam a inversão da ordem social, o fim do inverno, a fertilidade e a passagem para um novo ciclo. Tudo isto muito antes de alguém lhes chamar Carnaval.
Desde 2019, o Entrudo Chocalheiro é Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. O reconhecimento trouxe visibilidade, visitantes e desafios. Trouxe também confusão. Muita gente chega a Podence sem perceber o que está a ver. Outros reduzem tudo a “folclore colorido”.
Este guia foi escrito para evitar isso.
Aqui explica-se o que são realmente os Caretos de Podence, porque é que os facanitos são tão importantes, o que acontece durante os dias de Entrudo e como visitar a aldeia sem transformar uma tradição viva num espetáculo vazio.
Se a ideia é ir a Podence apenas para fotografar máscaras, este artigo não é para si. Mas se quer compreender o que está por trás delas, continue a ler.

O Entrudo Chocalheiro de Podence não é um Carnaval. É um ritual.
O Entrudo Chocalheiro de Podence é uma celebração tradicional que antecede a Quaresma e marca simbolicamente o fim do inverno. Mais do que Carnaval, trata-se de um ritual comunitário com raízes antigas, ligado à fertilidade, à inversão de normas sociais e à identidade local.
Ou seja, chamar Carnaval ao Entrudo Chocalheiro é tecnicamente correto, mas culturalmente redutor. Em Podence, o Entrudo não serve para mascarar o quotidiano. Serve para o subverter.
Historicamente, este período marca o fim do inverno agrícola e a preparação simbólica para a primavera.
É um tempo de excesso controlado, ruído, invasão do espaço público e quebra temporária das normas sociais. Os Caretos correm, saltam, chocalham e ocupam a aldeia como figuras liminares: nem totalmente humanas, nem totalmente míticas.
O barulho dos chocalhos não é decorativo. É um elemento central do ritual. Afasta maus espíritos, desperta a terra adormecida e anuncia a mudança de ciclo.
A máscara, por sua vez, permite o anonimato e a liberdade de ação. Quem está por trás deixa de ser indivíduo e passa a ser função ritual.
É por isso que o Entrudo Chocalheiro não pode ser encenado fora do seu contexto. Não é um desfile. É uma prática comunitária enraizada num território específico, com regras implícitas e significados partilhados.
Ver os Caretos em Podence é assistir a uma tradição que nunca precisou de palco.
E compreender isso é essencial para perceber porque esta aldeia, durante poucos dias por ano, se torna o centro de uma das manifestações culturais mais singulares de Portugal.

Quem são os Caretos de Podence e porque não são figuras decorativas
Os Caretos de Podence são figuras rituais do Entrudo transmontano, associadas à inversão social e ao fim do inverno agrícola. Usam máscaras, trajes de franjas coloridas e chocalhos à cintura, percorrendo a aldeia de forma ruidosa e simbólica durante o Carnaval.
Ou seja, os Caretos de Podence são personagens rituais, não figurantes. Cada elemento do traje tem função, peso e significado.
O fato é composto por franjas de lã coloridas, colcha, calças, bandoleira, botas robustas e, sobretudo, a máscara. Tradicionalmente feita de lata, couro ou madeira, a máscara esconde o rosto e transforma quem a usa. Não há expressões simpáticas. Há exagero, grotesco e intenção de provocar.
À cintura, os chocalhos e campainhas são presos de forma a produzir som constante. Nas mãos, uma vara. Tudo neste conjunto serve para criar presença física e sonora. O Careto não passa despercebido, nem deve passar.
Durante décadas, apenas rapazes solteiros participavam. Hoje, a tradição evoluiu e inclui mulheres, sem perder o seu sentido original. O importante não é o género, mas o respeito pelo papel ritual.
Os Caretos não posam. Interagem. Aproximam-se, provocam, correm. O anonimato protege quem veste o traje e permite comportamentos que fora daquele contexto não seriam aceitáveis.
Reduzir os Caretos a “máscaras bonitas” é ignorar séculos de cultura popular transmontana. Em Podence, cada saída à rua é continuação de algo antigo, não uma recriação para consumo rápido.

Facanitos: onde começa a transmissão da tradição
Em Podence, a tradição não se explica. Aprende-se. E começa cedo.
Os facanitos são as crianças que vestem versões simplificadas do traje de Careto. Não são figurantes nem atração paralela. São o futuro da tradição. Ao acompanhar os mais velhos, observam, imitam e interiorizam comportamentos, ritmos e limites.
Desde pequenos aprendem a esconder a identidade, a controlar o corpo com o peso do traje e a usar os chocalhos com intenção. Aprendem também algo mais importante: quando avançar e quando parar.
Esta aprendizagem não acontece em oficinas nem em aulas formais. Acontece nas ruas, nas casas dos vizinhos, muitas vezes emigrantes que regressam de propósito para o Entrudo. É aí que o ritual se renova.
Os fatos dos facanitos são feitos com materiais mais simples, mas mantêm as cores e a lógica do traje adulto. Não há infantilização da tradição. Há adaptação à idade.
A existência dos facanitos é uma das razões pelas quais o Entrudo Chocalheiro se mantém vivo. Não depende de recriações históricas nem de financiamento externo. Depende da transmissão direta entre gerações.
É também um dos aspetos que mais impressiona quem visita Podence pela primeira vez. Porque ali percebe-se que não se trata de um espetáculo ocasional, mas de uma cultura em continuidade.
Os Caretos de Podence são perigosos?
Não. Apesar do comportamento provocatório e do barulho intenso, a tradição é controlada e respeitosa. O objetivo é simbólico, não agressivo.
Pode-se vestir de Careto sem ser da aldeia?
Não é aconselhável. O traje tem significado ritual e deve ser usado apenas por quem participa na tradição local.

Porque é que a UNESCO reconheceu os Caretos de Podence
Os Caretos de Podence foram reconhecidos como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2019 por representarem uma tradição viva, transmitida entre gerações, com forte ligação à comunidade local e significado cultural contínuo, não sendo uma recriação turística.
Assim, o reconhecimento do Entrudo Chocalheiro como Património Cultural Imaterial da Humanidade, não aconteceu por acaso. A UNESCO não distingue festas populares pelo impacto visual, mas pela sua relevância cultural, continuidade e ligação à comunidade.
No caso de Podence, todos esses critérios estavam presentes. Trata-se de uma tradição viva, praticada localmente, transmitida de geração em geração e com um significado claro para quem a mantém.
A candidatura foi liderada pela Associação Grupo de Caretos de Podence, entidade que tem desempenhado um papel central na preservação e divulgação da tradição. Não para a transformar, mas para a proteger.
O reconhecimento trouxe visibilidade internacional e um aumento significativo de visitantes. Trouxe também responsabilidade. Manter o equilíbrio entre abertura ao público e respeito pelo ritual é hoje um dos maiores desafios.
A distinção da UNESCO não congela a tradição. Reconhece-a como dinâmica, sujeita a adaptações, mas fiel ao seu núcleo simbólico. É isso que distingue património vivo de folclore encenado.
Visitar Podence depois de 2019 implica mais do que curiosidade. Implica consciência de que se está perante algo que ultrapassa o entretenimento.
Por que motivo é Património Cultural Imaterial?
Porque representa uma tradição viva, transmitida entre gerações, com ligação comunitária forte e significado cultural contínuo.
Que impacto teve a distinção UNESCO na aldeia?
Trouxe visibilidade, aumento de visitantes e desafios de gestão do ritual, preservando o seu núcleo cultural.

O que realmente acontece durante o Entrudo Chocalheiro
Durante o Entrudo, os Caretos percorrem a aldeia, chocalham, dançam e interagem com moradores e visitantes.
O anonimato permite comportamentos que não seriam possíveis fora do ritual. O ruído intenso, a velocidade e o caos controlado fazem parte da experiência.
Qual é a melhor altura do dia para ver os Caretos?
Durante a tarde, quando percorrem a aldeia e interagem mais.
É preciso bilhete para o Entrudo Chocalheiro?
Não. O evento decorre na aldeia e é de acesso livre, embora haja limitações naturais de lotação.

Quando ir a Podence: datas, ambiente e o que esperar em 2026
O Entrudo Chocalheiro 2026 decorre de 14 a 17 de fevereiro. As condições do tempo são frias, os terrenos irregulares e o ambiente intenso. Preparar roupa quente e calçado confortável é essencial.
Onde ficar durante o Entrudo Chocalheiro (e porque dormir perto faz diferença)
Uma vez que são quatro dias de festa em Podence, e com diferentes atividades, faz sentido ficar a dormir por lá.
Assim, na aldeia apenas há um alojamento local, que é o Joaquim do Norte e que tem wi-fi gratuito e pequeno-almoço.
Mas a pouco mais de 1 km da aldeia existem mais alojamentos, como o Hotel Azibo e Restaurante (2 estrelas) tem a vantagem de ficar perto da Barragem do Azibo.
Por outro lado, se não se importar de pagar um pouco mais, acredito que ficará bem instalado no Monte Bela Vista, que também tem vista para o Lago da Barragem do Azibo.
Além disso, que gostar ou quiser experimentar o Glamping, sugiro que espreite o Monte do Azibo Glamping.
Caso nenhum destes alojamentos lhe agrade, ou se estiverem esgotados, pode sempre ficar um pouco mais longe, como por exemplo em Macedo de Cavaleiros.
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Como visitar Podence com respeito pela tradição
Evite bloquear movimentos ou invadir espaços. Respeite interações e prepare crianças para ruído e movimento intenso.
Os Caretos podem ser fotografados?
Sim, mas com respeito. Evite bloquear movimentos ou tratar os participantes como figurantes.
É adequado para crianças?
Sim, desde que preparadas para intensidade da festa.
Qual a origem dos Caretos de Podence?
Como referi, os Caretos de Podence são uma tradição popular portuguesa que tem raízes antigas e enraizadas na cultura da região de Trás-os-Montes, em especial, na vila de Podence.
Embora não haja consenso sobre a origem exata dos Caretos, acredita-se que eles tenham sido influenciados por várias culturas antigas, incluindo celtas, romanos e mouros.
Os Caretos são máscaras coloridas e assustadoras usadas por homens e mulheres que desfilam pelas ruas das aldeias durante a folia do Entrudo, ou seja, no Carnaval.
Eles dançam agitando as campainhas que trazem à cintura, espantando as pessoas e, enfim, protegendo-as dos maus espíritos. A tradição dos Caretos de Podence tem sido transmitida de geração em geração, mantendo-se viva até hoje.
Algumas teorias sugerem que os Caretos têm raízes pagãs e remontam ao culto aos deuses celtas da fertilidade. Outros acreditam que eles foram influenciados pelos rituais de máscaras romanos, enquanto que outros ainda argumentam que a tradição dos Caretos foi influenciada pelos antigos rituais islâmicos dos mouros.
Independentemente das suas raízes, os Caretos de Podence são hoje um símbolo de identidade da região de Trás-os-Montes e uma tradição que é fortemente defendida pelos moradores locais.
Enfim, eles são uma parte importante da cultura popular portuguesa e atraem turistas de todo o mundo que desejam testemunhar essa tradição vibrante e única.

O que fazem os Caretos?
Além de dançar e chocalhar (ou seja, agitar os chocalhos) pelas ruas das aldeias, protegendo as pessoas dos maus espíritos, os Caretos também têm outra função interessante.
É que os rapazes, salvaguardados pelo anonimato da máscara, vão atrás das raparigas casadoiras, atraindo a sua atenção e dançando com elas.
É uma tradição marota, mas ninguém leva a mal.
Esta tradição é uma forma de homenagear as mulheres jovens e bonitas da região, mas também é uma forma divertida de expressar o amor e o desejo por elas.
No entanto, a tradição é completamente respeitosa e não há nenhum tipo de pressão ou obrigação para as raparigas dançarem com os Caretos.
Qual a terra dos Caretos?
A terra dos Caretos é a região de Trás-os-Montes, localizada no Norte de Portugal.
Uma região rica em história e tradições, sendo que os Caretos são uma dessas tradições populares que continuam até hoje.

Onde comprar o fato de Careto?
Pode comprar fatos de Careto em lojas especializadas em trajes tradicionais em Portugal, especialmente na região de Trás-os-Montes onde a tradição dos Caretos é mais comum.
Algumas cidades como Podence, Macedo de Cavaleiros e Mirandela têm lojas que vendem fatos de Careto durante todo o ano.
Também é possível comprar fatos de Careto online, no entanto, é importante verificar a qualidade do material antes de comprar, já que alguns fatos podem não ser muito duráveis.
Além disso, algumas associações de Caretos em Trás-os-Montes também oferecem a opção de aluguer de fatos para aqueles que desejam experimentar a tradição sem precisar de comprar o seu próprio traje.
Onde fica Podence?
Podence é uma aldeia localizada no distrito de Macedo de Cavaleiros, ou seja, no Norte de Portugal.
É conhecida pela sua tradição dos Caretos e está situada na região de Trás-os-Montes, isto é, a cerca de 178 km do Porto e 33 km de Bragança.
FAQ – Perguntas frequentes sobre os Caretos de Podence
São figuras rituais associadas ao Entrudo Chocalheiro, uma tradição ancestral de Trás-os-Montes ligada à inversão social e aos ciclos agrícolas.
Em 2026, decorre de 14 a 17 de fevereiro, coincidindo com os dias principais do Carnaval.
Sim, mas com respeito. Evite bloquear movimentos, invadir espaços ou tratar os participantes como figurantes.
Sim, mas o ambiente é intenso, com muito ruído e movimento. Convém preparar as crianças para isso.
O ideal é ficar na aldeia ou nas imediações da Barragem do Azibo, para evitar deslocações longas durante os dias de festa.
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