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[Guest Post] Caminho de Santiago|Dia 6: Hebron – Santiago

Este é o último artigo de autoria de Magda Silva Veríssimo do blogue Cheia de Penas ( https://cheiadepenas.blogspot.com/) a ser publicado no passaporte no bolso.

Magda, tens a palavra!

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DIA 6: Hebron – Santiago

Já sabia desde o dia anterior que o dia começava com os meus companheiros do Caminho, mas não acabaria com eles. Os alemães e os catalães queriam ficar em Teo naquela noite e chegar a Santiago apenas no dia seguinte. Esta seria uma etapa grande, à semelhança do dia que tinha chegado a Redondela. Mas eu queria estar na Corunha no sábado para regressar a Portugal no Domingo e por isso não ia alterar a minha programação. Além do mais, todos eles estavam com alguém próximo deles e eu estava sozinha e por isso queria mesmo terminar o meu Caminho.

A Cris perguntou-me de manhã se eu estava nervosa de chegar a Santiago. Respondi-lhe que não, não estava nervosa, mas estava muito feliz. Aliás, ao longo de todos os dias deste Caminho estive sempre muito feliz, de uma forma muito simples e autêntica, sentia-me preenchida. Combinámos que caminhariamos juntos até Teo e que depois eu seguiria. No entanto, pela manhã o meu ritmo estava mais acelerado que o de todos os outros.

Ottmar caminhou ao meu lado grande parte do tempo, como o fez muitas vezes ao longo do Caminho – eu gostei muito de caminhar tantos quilómetros ao lado do Ottmar: falávamos das gordinhas portuguesas, duas raparigas do Porto que eram bastante fortes e que se via que fisicamente era muito desafiante para elas, mas que todos os dias as encontrávamos; fizémos amizade com um americano que acabámos por convencer a ir às cascatas ao lado do Caminho; descobrimos que a rapariga alemã que todos os dias víamos caminhar sozinha afinal estava acompanhada, simplesmente queria fazer o Caminho ao seu ritmo e ia-se encontrando com as amigas ao longo do dia. Guardo boas memórias do Ottmar – não que não guarde dos outros, de forma alguma, mas talvez por termos conversado tanto. É incrível como raramente íamos calados quando caminhávamos, havia sempre assunto entre todos e falámos todos com todos – até Pera!

Chegámos a uma igreja que estava fechada e todos queriam parar para tomar um café, mas eu queria continuar. Foi aí que todos percebemos que o nosso Caminho seguiria em separado. Comecei a despedir-me de todos e a Cris disse-me que se emocionava sempre nestes momentos: foi aí que não consegui conter as lágrimas. Saí de junto dos meus amigos a chorar, como quando se perde alguém. Tinham sido a minha família naqueles dias, a nossa ligação era muito forte. Caminhei alguns metros a chorar, enquanto um peregrino passou por mim de bicicleta. Decidi ouvir música, porque não me agradava ouvir o meu ruído a caminhar (ou a falta do barulho dos outros).

Nesse momento a conclusão que caminhar sozinha era bem mais difícil, e que eu já tinha comentado com os meus amigos, caiu-me em cima. Caminhar é estar connosco próprios e ter tempo para nós próprios, mas sozinhos temos de decidir tudo, temos de nos auto-motivar. É aqui que o Caminho se torna uma analogia das nossas vidas.

Ao fim de alguns quilómetros, ao atravessar uma estrada, um dos peregrinos sevilhanos dos chapéus de palha (eram 4, todos os dias os tinha visto) estava ao meu lado e perguntou-me se eu estava sozinha. Eu tirei os auscultadores dos ouvidos e disse-lhe que sim, que os amigos com quem tinha caminhado até ali só iriam no dia seguinte para Santiago. Ele prontamente me disse que eu já não estava mais sozinha, que iria com eles. Apressamos o passo para apanhar o restante grupo, a quem se tinha juntado uma holandesa e outro espanhol. Eu também já tinha visto a holandesa nos outros dias, ela caminhava sozinha. A holandesa não falava espanhol e os espanhóis não falavam inglês, por isso levavam o tradutor do telefone na mão. Quer dizer, fizeram isto até eu me juntar a eles, depois passei eu a traduzir para ambos.

O grupo dos sevilhanos era muito animado e a única coisa que tinham em comum eram os chapéus, porque eram todos muito diferentes uns dos outros. Cada um tinha as suas tarefas no grupo. Fomos sempre a conversar até Santiago, onde eles pararam para comer e eu segui com a holandesa. Primeiro fomos comprar o bilhete dela de autocarro, uma vez que ela tinha voo no dia seguinte do Porto para a Holanda. Quando íamos para a Catedral juntou-se a nós uma americana que tinha abandonado o Caminho Francês por indicação médica, uma vez que tinha apanhado percevejos num albergue.

Chegámos então as três à Catedral. Não foi a melhor parte do Caminho, foi até bastante agridoce: os meus amigos não estavam ali, a minha família não estava ali e a Catedral estava em obras na fachada principal, tendo a entrada de ser feita pela lateral. Havia uma multidão enorme nas ruas de Santiago. Vi na Praça do Obradoiro bastantes caras conhecidas dos últimos dias. Fomos comer e depois cada uma de nós seguiu para o seu alojamento.

Eu já sabia que no meu alojamento em Santiago ia estar o grupo de peregrinos da Marinha Grande e foi muito bom assim que lá cheguei vê-los – pequenas coisas que fazem grande diferença. Despachei-me para ir à missa do peregrino daquela tarde. Infelizmente estive sozinha na missa – continuei a ver caras conhecidas, mas a verdade é que estava sozinha, no meio daquela multidão de sandálias desportivas nos pés. A Catedral estava cheia, haviam muitos padres a celebrar. O momento mais alto para mim foi quando anunciaram que ia haver botafumeiro. Nem cabia em mim de contente! Sabia que não havia sempre, sabia que não era garantido nem possível de marcar. Filmei aquele momento em que foi cantando o bonito hino do Apóstolo Santiago e o botafumeiro circulou pela Catedral.

No final da missa encontrei a americana e fomos até à oficina do peregrino, que já tinha encerrado. Comprámos as nossas lembranças e fomos jantar. Voltei à Oficina do peregrino no dia seguinte para ter a minha Compostela e fui dar o meu abraço ao Santiago – não foi a primeira vez que o abracei, mas abracei-o como se fosse um amigo, uma daquelas pessoas que nos toca no Caminho da Vida.

No caminho para casa fiz em cerca de duas horas o que demorei 6 dias a pé e fui vendo peregrinos. Vinha feliz, mas de certa forma incompleta. Esta foi a primeira viagem que fiz sozinha e cheguei logo à conclusão nos primeiros dias que quando me perguntassem como tinha corrido me remeteria à resposta “Uma porcaria”, porque foi muito intenso e muito pessoal e por muito que explicasse ninguém ia perceber o meu Caminho. Mas acabei por responder que tinha recuperado a esperança na humanidade e que o facto de ter conhecido pessoas boas, ao contrário do que acontece no quotidiano, tinha sido muito bom também. Ali, as pessoas preocupam-se umas com as outras, mas sem ser em demasia e isso sabe muito bem.

A experiência da mochila correu muito bem: foram poucas as coisas que não usei, e pude vestir a roupa que bem entendi, quando entendi, sem constrangimentos. Nunca ter apanhado chuva também foi muito bom.

Este Caminho mudou a minha forma de conhecer o mundo e a mim mesma no mundo, embora muita da experiência eu esteja ainda a absorver e julgo que vá continuar a fazê-lo ainda por algum tempo. Quero repetir o Caminho quando tiver oportunidade.


 

Não perca nenhum dos artigos!

PRÉ-CAMINHO

DIA 1: Valença – O Porriño

DIA 2: O Porriño – Redondela

DIA 3: Redondela – Pontevedra

DIA 4: Pontevedra – Caldas de Reis

DIA 5: Caldas de Reis – Hebron

DIA 6: Hebron – Santiago

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